O luto não acontece em linha reta: compreendendo os caminhos da perda e da saudade.

Há dias em que parece que estamos conseguindo seguir. Em outros, uma lembrança é suficiente para fazer a ausência ser sentida novamente. Compreender esses movimentos pode ajudar a atravessar o luto com menos cobrança e mais compreensão sobre aquilo que se está vivendo.

O luto é uma experiência profundamente humana e, muitas vezes, difícil de explicar.

Há dias em que você levanta, trabalha, conversa, resolve o que precisa ser resolvido e até consegue rir. Por algumas horas, parece que a vida começa novamente a encontrar o seu lugar.

Então, inesperadamente, uma música toca. Um perfume conhecido aparece no meio da rua. Você encontra uma fotografia, passa por determinado lugar ou se lembra de uma conversa.

E a ausência volta a ser sentida.

Às vezes vem como tristeza. Em outros momentos, como saudade, vazio ou vontade de se recolher. Pode surgir até uma sensação de culpa por ter conseguido se divertir, fazer planos ou simplesmente perceber que a vida continua.

Diante dessas oscilações, algumas perguntas são frequentes:

“Por que eu ainda estou assim?”

“Será que eu já não deveria estar melhor?”

“Por que existem dias em que parece que voltei ao começo?”

Talvez parte do sofrimento esteja justamente na expectativa de que melhorar deveria significar não sentir mais.

O luto não segue uma linha reta

Embora algumas reações sejam frequentes após uma perda, a Psicologia contemporânea não compreende o luto como uma sequência emocional rígida que todas as pessoas precisam percorrer da mesma maneira.

Um dos modelos importantes para compreender esse processo é o Modelo do Processo Dual do Luto, proposto pelos pesquisadores Margaret Stroebe e Henk Schut.

Segundo esse modelo, a adaptação à perda pode envolver uma oscilação entre momentos mais orientados para a própria perda e outros mais voltados para a restauração da vida cotidiana.

Em determinados períodos, a pessoa pode estar mais próxima da saudade, das lembranças, da tristeza e das mudanças provocadas pela ausência. Em outros, consegue direcionar sua atenção ao trabalho, às relações, às responsabilidades, aos projetos e às experiências que continuam acontecendo.

Essa alternância pode fazer parte do próprio processo de adaptação.

Por isso, ter um dia leve não diminui a importância de quem se foi.

Da mesma forma, reencontrar a dor depois de algum tempo não significa necessariamente que todo o caminho percorrido foi perdido.

Quando uma lembrança faz a ausência reaparecer

A relação construída com alguém importante está associada a inúmeras experiências: lugares, músicas, datas, hábitos, conversas, cheiros, objetos e situações compartilhadas.

Por isso, uma lembrança pode surgir quando menos esperamos.

Você pode estar vivendo um dia tranquilo e, diante de uma fotografia, uma música ou um lugar conhecido, sentir novamente uma emoção intensa relacionada àquela pessoa.

Datas comemorativas, aniversários e acontecimentos importantes também podem despertar lembranças e sentimentos mesmo depois de períodos de maior estabilidade.

Isso não significa, necessariamente, que o processo esteja voltando ao início.

A ausência permanece como parte da história. O que pode se transformar, ao longo do tempo, é a maneira como cada pessoa consegue se relacionar com ela.

O vínculo pode continuar mesmo diante da ausência

Talvez uma das ideias mais difíceis relacionadas ao luto seja imaginar que, para continuar vivendo, seria necessário deixar para trás quem morreu.

A literatura contemporânea apresenta uma compreensão mais ampla.

O conceito de vínculos contínuos (continuing bonds) descreve a possibilidade de a relação com quem morreu continuar existindo de outra maneira: por meio das lembranças, dos significados construídos, dos valores compartilhados e daquilo que essa pessoa passou a representar internamente.

Uma revisão sistemática publicada na revista científica Death Studies, que analisou 79 estudos, identificou diferentes formas pelas quais esses vínculos aparecem na experiência do luto. Os pesquisadores encontraram aspectos relacionados ao conforto e ao sofrimento, além de questões envolvendo identidade, significado, espiritualidade e continuidade simbólica da relação.

Isso também mostra que não existe uma única maneira adequada de manter esse vínculo. Para algumas pessoas, determinadas lembranças trazem conforto; para outras, podem despertar sofrimento. A experiência precisa ser compreendida dentro da história e do contexto de cada pessoa.

Elaborar uma perda, portanto, não exige apagar uma história.

Com o passar do tempo, pode significar construir outra maneira de conviver com aquilo que aconteceu: preservar o que teve significado e, ao mesmo tempo, recuperar espaço interno para outras experiências.

Cada pessoa tem o seu processo

Uma das cobranças mais comuns durante o luto está relacionada ao tempo.

“Já passou tanto tempo.”

“Eu deveria ter superado.”

“Todo mundo parece ter seguido a vida.”

Mas não existe um calendário capaz de determinar, sozinho, como alguém deveria estar se sentindo.

A experiência do luto é influenciada pelo vínculo estabelecido, pelas circunstâncias da morte, pela história daquela relação, por outras perdas vividas, pela rede de apoio, pelo contexto cultural e pelas mudanças concretas que aquela ausência provocou na vida.

Por isso, comparar processos pode aumentar ainda mais o sofrimento.

Ao mesmo tempo, reconhecer que cada pessoa possui seu próprio ritmo não significa ignorar situações em que o sofrimento permanece muito intenso e começa a comprometer significativamente a vida cotidiana.

Quando o luto precisa de maior atenção?

O luto, por si só, não é uma doença.

Muitas pessoas atravessam esse processo utilizando recursos pessoais, familiares, sociais, culturais ou espirituais.

Entretanto, em algumas situações, o sofrimento pode permanecer intenso e persistente, acompanhado de dificuldades importantes para retomar atividades, relacionamentos e aspectos fundamentais da própria vida.

O DSM-5-TR — Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais — reconhece o Transtorno do Luto Prolongado

Sua avaliação não depende simplesmente de a pessoa continuar sentindo saudade depois de determinado período. Envolve critérios específicos, persistência dos sintomas, sofrimento clinicamente significativo, prejuízo no funcionamento e consideração das normas sociais, culturais e religiosas relacionadas ao luto.

Essa diferenciação é importante justamente para não transformar uma experiência humana dolorosa em doença, mas também para reconhecer quando o sofrimento necessita de avaliação e cuidado profissional.

E onde entra a psicoterapia?

Algumas pessoas conseguem atravessar o luto apoiando-se nos próprios recursos e nas relações que as cercam.

Outras percebem, em algum momento, que precisam de ajuda para compreender aquilo que estão vivendo e reorganizar a vida depois da perda.

Buscar psicoterapia não significa que alguém esteja vivendo o luto da maneira errada.

O acompanhamento psicológico também não tem como finalidade estabelecer um prazo para o sofrimento ou retirar da memória aquilo que foi importante.

A psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender emoções e pensamentos relacionados à perda, reconhecer fatores que estejam intensificando o sofrimento, reconstruir significados e encontrar formas possíveis de reorganizar aspectos da vida que foram profundamente modificados.

Para pessoas que desenvolvem sintomas persistentes de luto prolongado, a literatura científica também apresenta resultados relevantes para intervenções psicológicas estruturadas, incluindo abordagens com componentes cognitivo-comportamentais.

O propósito não é desfazer o vínculo com quem morreu, mas favorecer condições para que a perda possa ser integrada à própria história sem impedir que novos capítulos também sejam construídos.

A vida depois de uma perda importante

Existem perdas que modificam a nossa história de forma permanente.

Depois delas, talvez não exista simplesmente um retorno à vida exatamente como era antes. Existe uma realidade que, aos poucos, precisa ser reorganizada.

Nela, podem coexistir saudade e esperança.

Lembranças e novos projetos.

Momentos difíceis e dias genuinamente bons.

Uma experiência não precisa invalidar a outra.

Talvez uma das transformações possíveis ao longo do luto aconteça quando percebemos que continuar vivendo não exige abandonar aquilo que teve significado.

A ausência pode continuar sendo sentida sem ocupar todos os espaços da existência.

E aquilo que foi vivido pode permanecer na nossa história sem precisar permanecer apenas como dor.

Seguir em frente não significa deixar para trás.

Às vezes, significa descobrir uma nova maneira de levar conosco aquilo — e aqueles — que fizeram parte de quem somos.

Lilian Magnani

Psicóloga

CRP SC 12/31625

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders: DSM-5-TR. 5th ed., text rev. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

HEWSON, H.; GALBRAITH, N.; JONES, C.; HEATH, G. The impact of continuing bonds following bereavement: a systematic review. Death Studies, v. 48, n. 10, p. 1001–1014, 2024. DOI: 10.1080/07481187.2023.2223593.

PLESHKA, A.; CRAWFORD, S.; WELLSBY, M.; et al. Treatments for Prolonged Grief Disorder: A Systematic Review and Network Meta-Analysis. OMEGA — Journal of Death and Dying, 2025. DOI: 10.1177/00302228251364716.

STROEBE, M.; SCHUT, H. The dual process model of coping with bereavement: rationale and description. Death Studies, v. 23, n. 3, p. 197–224, 1999. DOI: 10.1080/074811899201046.

O Autor

Foto de Lilian Magnani
Lilian Magnani
Psicóloga Clínica, com pós-graduações e formações continuadas na área, tem na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) uma das principais referências de sua prática, conciliando conhecimento científico, escuta clínica e atenção à singularidade de cada história. Seu percurso profissional é guiado pelo interesse em compreender o comportamento humano, pelas relações e pelos processos emocionais que acompanham as diferentes fases da vida. Em seus textos, compartilha conhecimento e reflexões sobre Psicologia e saúde emocional, aproximando a ciência das questões que fazem parte da vida real.
Compartilhe
WhatsApp
Facebook
Threads
X
LinkedIn
Telegram